Vivia na Idade Média em Estremoz e o fungo que tinha num pé era raro na Europa

Notícia publicada pelo publico.pt

Algures numa povoação alentejana, na Idade Média, um indivíduo teve uma infecção fúngica no pé esquerdo. Passados longos séculos, o seu esqueleto foi encontrado nessa povoação que hoje é a cidade de Estremoz e a infecção pode ter muito a dizer sobre aquela época. Duas investigadoras portuguesas analisaram o tal esqueleto e, em 2016, publicaram o trabalho na revista International Journal of Paleopathology. 

Decorria o ano de 2003, quando numa escavação de acompanhamento de obras no parque de estacionamento do Rossio Marquês de Pombal, no centro histórico de Estremoz, Alto Alentejo, foram encontrados 115 esqueletos. Afinal, sabia-se que, em tempos, o local onde está agora o parque de estacionamento no centro da cidade tinha sido uma necrópole.

Os esqueletos foram levados para o Laboratório de Antropologia Biológica, da Universidade de Évora, mas a falta de financiamento para o seu estudo ditou que ali permanecessem, durante anos, sem qualquer estudo.

Até que, em 2014, Ana Curto terminou o mestrado em Biologia Humana e Evolução, na Universidade de Coimbra, e começou a trabalhar no laboratório da Universidade de Évora. Foi durante esse período que encontrou um esqueleto muito particular (e esquecido) no laboratório. “Calhou encontrar o pé desse esqueleto e vi que tinha uma infecção. Os ossos do pé estavam mais leves, mais até do que seria de esperar”, começa por dizer-nos. A ela, juntou-se a antropóloga biológica Teresa Matos Fernandes, professora catedrática da Universidade de Évora.

Mas, afinal, que esqueleto é este? Entre o conjunto de 115 esqueletos de que fazia parte, era um dos 72 adultos. Deste conjunto, 32 eram homens, 22 mulheres e 18 estavam em mau estado de conservação e não foi possível identificar o seu sexo. Os restantes 43 eram esqueletos de recém-nascidos e de indivíduos com idades até aos 18 anos.

Para perceber a altura em que estas pessoas viveram, dois esqueletos da mesma necrópole foram datados por radiocarbono. Concluiu-se que tinham vivido entre os séculos XIII e XV.

Todo este estudo permitiu também determinar que o esqueleto em análise era de um homem, com 1,59 metros de altura e uma idade entre os 23 e os 57 anos. No final, obtiveram-se também imagens a três dimensões do pé esquerdo, aquele que tinha a infecção, para que “ficasse mais acessível” para a investigação, de acordo com Ana Curto.

As lesões presentes neste enigmático pé esquerdo foram comparadas com outras patologias, como cancro nos ossos, lepra, anquilose congénita ou pé de Madura. “Percebemos que se tratava de uma maduromicose [ou pé de Madura], nome de uma doença que é estranho encontrar-se nesta região”, explica Ana Curto, agora a fazer o doutoramento na Universidade de Kent, no Reino Unido.

O pé esquerdo apresentava marcas de alterações do osso do calcanhar e no cubóide (osso do tarso que se articula com o calcâneo), que provocaram anquiloses (paragem de movimento numa articulação), assim como uma artrose do calcanhar e do astrágalo (osso da articulação entre a tíbia e o osso do calcanhar).

Num país (quase) tropical

O que é então esta doença? O pé de Madura é uma doença crónica que se instala nos ossos e afecta a sua formação, destruindo também a cartilagem das articulações. É provocada por actinobactérias (também conhecidas como actinomicetos e cujo aspecto tem parecenças com fungos) ou mesmo por fungos eumicetos. Teresa Matos Fernandes salienta que não é possível excluir outras doenças para as lesões observadas no esqueleto. “Contudo, a morfologia das lesões, bem como a sua localização e distribuição e ainda a semelhança com as lesões observadas em casos clínicos (actuais) sugerem muito fortemente uma infecção provocada por fungos causadores do pé de Madura.”

A maduromicose é transmitida através da pele, tem um período de incubação de semanas, meses ou mesmo anos e pode levar à perda de função dos ossos. O pé de Madura está associado a climas tropicais, subtropicais ou a áreas equatoriais, ou seja, a latitudes associadas à chamada “cintura do micetoma”. Aliás, o próprio nome da doença deriva da cidade de Madura, na Índia, onde foi reportada, pela primeira vez, em meados do século XIX.

Afecta sobretudo a população que anda descalça e trabalhadores agrícolas num clima húmido, com vegetação abundante e espinhosa. As zonas do corpo mais afectadas são as coxas, os joelhos, as pernas, as mãos, os braços ou os pés. É muito comum nos homens, por tradicionalmente desempenharem certo tipo de trabalhos na agricultura, e também porque pode haver uma inibição desta doença nas mulheres causada pela progesterona (uma hormona sexual feminina).

Os primeiros casos clínicos na Europa surgiram na Grécia e na Itália, durante os anos 20. Em Portugal, conheciam-se apenas três casos, um de 1963, outro de 1970 e ainda um de 1971. Os três indivíduos terão sido infectados por outras pessoas que estavam em viagem, talvez vindas de África. Entretanto, mais casos foram reportados em Portugal. Mais recentemente, por volta de 2013, foi conhecido o caso de um agricultor de 46 anos, da Madeira, onde terá sido infectado, e que tinha um inchaço no pé direito. A doença terá evoluído ao longo de oito anos.

Conhece-se também um caso de 2015, de uma mulher cabo-verdiana, que terá contraído a doença no seu país de origem. “Penso que o fungo também existe no Sul da Europa, mas com o uso generalizado de calçado as infecções não são frequentes”, explica Ana Curto.

A nível arqueológico, em Portugal, apenas se conhece o esqueleto da necrópole de Estremoz: “Por enquanto, este esqueleto é o único caso em Portugal”, sublinha Ana Curto. “A verdade é que não sabemos se no passado este tipo de fungo terá sido mais frequente na Europa (pelo menos no Sul), mas a utilização de sapatos, por exemplo, poderá ter ajudado a diminuir os casos de infecção”, explica. “É surpreendente encontrar esta infecção na Europa, porque se pensa que estas infecções estão restritas a zonas tropicais e subtropicais.”

Em todo o mundo, há mais um caso arqueológico conhecido e publicado num artigo científico: é do México, que se situa na cintura do micetoma. “Há também um possível caso em Israel, que foi depois rediagnosticado como tendo lepra. Porém, é possível que tenha tido as duas infecções”, informa Ana Curto.

Quanto ao indivíduo do esqueleto de Estremoz, não se sabe concretamente quem era e como terá sido infectado. “Possivelmente, o indivíduo estudado pode ter sido infectado fora de Portugal e também não se pode excluir a hipótese de que foi infectado fora do território europeu”, lê-se no artigo. “Era uma população que se movia muito. Não conseguimos perceber se foi infectado na Europa ou no Médio Oriente”, afirma ainda Ana Curto.

Na Idade Média, Estremoz era uma pequena localidade rural. Por isso, o homem poderá ter sido um agricultor. “Nada, na sua sepultura e no tipo de prática funerária que lhe foi dada, indica que o indivíduo em questão se destacaria dos restantes, ou seja, deveria ter uma profissão e posição social correntes para a época e local”, explica Teresa Matos Fernandes. “Pode colocar-se a hipótese de ter estado envolvido em trabalhos agrícolas, que estão associados a situações de risco (por andarem descalços e estarem sujeitos a feridas que os fungos utilizariam como uma porta de entrada no organismo)”, acrescenta.

Se o pé de Madura é uma doença característica de climas tropicais, isso também pode querer dizer algo mais. “É conhecida a existência de uma anomalia climática europeia entre 1000 a 1400, com clima mais quente, propício aos fungos deste tipo”, diz Teresa Matos Fernandes. “Essa infecção está [hoje] mais relacionada com os países tropicais. Nesta altura, Estremoz era mais húmida do que é agora”, refere por sua vez Ana Curto. Como Estremoz tinha um clima mais húmido na Idade Média, então confirmam todas as suspeitas: “Suporta a hipótese de se tratar de uma infecção fúngica.”

Doença do pé tratada na cabeça?

Há ainda outras particularidades neste esqueleto. O seu crânio apresenta pequenos furos, de 31 a 21 milímetros de diâmetro, que as investigadoras relacionaram com uma forma de tratamento, a trepanação. “Este podia ser um indício de medicina e estar relacionado com essa patologia [o pé de Madura]. Pode ter sido uma forma de ajudar a resolver esta doença”, considera Ana Curto.

Mas isto ainda é só uma hipótese. Ana Curto diz que é necessário mais dinheiro para se estudarem mais pormenores deste esqueleto. “Sem financiamento, não conseguimos encontrar mais nada.” Teresa Matos Fernandes concretiza o que poderia fazer-se: “Um diagnóstico molecular [com ADN] poderá ser tentado, assim como uma análise de isótopos [variantes de átomos] que possam esclarecer a eventual inexistência de mobilidade do indivíduo.” Para estas análises, Ana Curto estima serem necessários cerca de 1500 euros, mas ainda é preciso “mais dinheiro” para estudar em detalhe toda a necrópole de Estremoz e contratar um antropólogo durante alguns meses.

Ora o esqueleto de Estremoz foi um dos vestígios arqueológicos que a revista norte-americana Forbes destacou no final de 2016. “Um estudo publicado este ano mostra que um homem viveu com micetoma, no século XIV, no Sudeste de Portugal”, lê-se na revista, que coloca o esqueleto de Estremoz no 10.º lugar entre dez esqueletos mais intrigantes de 2016. “No passado, antes da aplicação de bons antifúngicos e antibióticos, o micetoma seria de cura quase impossível, a não ser que fosse praticada a amputação do membro”, acrescenta a Forbes.

Na lista, está ainda o esqueleto de um gladiador romano sem cabeça, encontrado em Inglaterra; o do cantor italiano do século XIX Gaspare Pacchierotti; ou ainda dentes de esqueletos de 20 mulheres no século VI, que permitem perceber como a peste justiniana as afectou.

Além do pé de Madura do esqueleto de Estremoz, na necrópole da cidade alentejana encontraram-se doenças em mais dois esqueletos – um tinha a síndrome de Klippel-Feil (anomalia congénita que se caracteriza pela ausência ou fusão de algumas vértebras) e o outro sofria de epifisiólise (doença óssea rara do fémur). Tudo isto num Alentejo mais húmido do que o actual.

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